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Inconveniente

Por que créditos de carbono para preservar florestas podem ser piores do que nada

RIO BRANCO — O estado do Acre, na extremidade mais oeste do Brasil, é tão remoto que uma piada nacional diz que ele não existe. Mas, para o geoquímico Foster Brown, o Acre é o centro do universo, um lugar que pode ajudar a salvar o mundo.

“Isso aqui é um exemplo de esperança”, ele diz, nos fundos de seu escritório na Universidade Federal do Acre, cujo campus está rodeado pela floresta Amazônica. Brown coloca suas mãos no tronco fino de uma árvore e me diz para fazer o mesmo. “Existe um fluxo de água subindo por esse caule e um fluxo de seiva descendo, trazendo consigo compostos de carbono”, diz. “Você está sentindo?”

Eu não senti nada. Mas esse processo invisível é a chave para um grande fluxo de dinheiro para o Brasil, assim como uma oportunidade essencial para países que estão tentando evitar as mudanças climáticas sem atrapalhar suas economias. Se o carbono nessas árvores pudesse ser quantificado, o Acre poderia vender seus créditos para poluidores que emitem nuvens de CO₂.Qualquer quantidade que eles emitissem seria compensada ou anulada, em teoria, pela floresta.

A oito mil quilômetros dali, na Califórnia, políticos, cientistas, magnatas do petróleo e bichos-grilo estão extremamente empolgados com a ideia. O estado é o segundo maior poluidor dos Estados Unidos: o setor de óleo e gás emite cerca de 50 milhões de toneladas métricas de CO₂ por ano. E se a Chevron, a Shell ou a Phillips 66 pudessem compensar parte do dano ambiental pagando o Brasil para não desmatar?

O apetite por créditos de carbono é global. Da indústria da aviação a países industrializados signatários do acordo climático de Paris, a compensação de emissões poderia ser uma alternativa mais barata do que realmente reduzir o uso de combustíveis fósseis.

Mas a corrida desesperada por esses planos de crédito de carbono parece estar fazendo muitos dos seus defensores fecharem os olhos para evidências cada vez maiores de que não tivemos — nem teremos — os benefícios prometidos.

Eu pesquisei projetos de crédito de carbono implementados nas últimas duas décadas por todo o mundo e revisei pesquisas acadêmicas realizadas em florestas remotas, estudos pouco divulgados, relatórios de governos estrangeiros e documentos técnicos complicados. Contei com a ajuda de uma empresa de análise de imagens de satélite para saber o quanto de cobertura florestal havia sobrado de um projeto que começou a vender créditos em 2013. Quatro anos depois, apenas metade das áreas ainda tinha floresta.

Caso após caso, descobri que os créditos de carbono não tinham compensado a quantidade de poluição que eles prometiam, ou que os ganhos que trouxeram foram rapidamente perdidos ou não podiam nem ser mensurados. No final, os poluidores ganharam passe livre para continuar emitindo CO₂, mas a preservação florestal que deveria equilibrar a balança ambiental nunca aconteceu ou não durou.

Rodovia BR-364 na cidade de Rio Branco, com uma madeireira de um lado e um lago do outro.

“O mecanismo de compensação por si só está causando dano [ambiental]”, diz Larry Lohmann, que passou 20 anos estudando os créditos de carbono. Enquanto estamos sentados aqui contando carbono e fazendo contas, mais CO₂ está se acumulando na atmosfera, diz.

É “a pior ideia possível — com exceção de todo o resto”, diz Timothy Searchinger, pesquisador da Universidade de Princeton que estuda o uso da terra e mudanças climáticas. “Se tivéssemos dinheiro o suficiente, provavelmente ajudaria muito”.

Ele repetiu uma ideia que escutei várias vezes das pessoas que propõem esse conceito: a compensação de carbono pelas florestas não teve uma chance real de funcionar, mesmo após centenas de tentativas pelo mundo. Muitos projetos venderam créditos no mercado voluntário, tanto para empresas buscando marketing verde quanto para consumidores com boas intenções. Mas isso não permitiu que gerassem dinheiro o bastante para alcançarem seus objetivos. Se a Califórnia e outros gigantes entrassem no mercado, finalmente teriam recursos suficientes.

O programa cap-and-trade (limite e comércio, em tradução livre) da Califórnia já permite que empresas compensem uma pequena porcentagem das suas emissões de carbono com projetos de preservação de florestas nos Estados Unidos e no Canadá. Mas, neste ano, o Conselho de Recursos Atmosféricos da Califórnia pode aprovar o chamado Tropical Forest Standard, ou Diretrizes para Florestas Tropicais — um modelo de como a compensação de carbono pode ser realizada em programas intercontinentais. Especialistas dizem que as diretrizes podem ser adotadas por outros países e provavelmente serão.

O Acre é considerado pelo mundo todo como o melhor lugar para começar os testes. “O programa do Acre é o mais avançado”, um porta-voz do conselho disse por email. Apoiadores da ideia ficaram me enviando materiais de propaganda com palavras como “pioneiro”, “inovador” e “novos modelos de negócio” junto com imagens de moradores sorridentes colhendo castanha-do-pará em vez de desmatar a floresta.

Então eu viajei ao Acre para ver como o programa estava funcionando. Encontrei extensas áreas de pastagens onde antes as pessoas extraíam seringa para produzir borracha. Muitos me disseram que não têm como sobreviver apenas com as alternativas sustentáveis, então precisam derrubar árvores. Funcionários do governo falaram de conservação, mas líderes políticos estão cortando fundos para isso e planejam expandir o agronegócio. Diversos representantes do governo acreano reconheceram rapidamente que sua prioridade é conseguir ajuda internacional para proteger a floresta; a validade da compensação de créditos vem depois.

Aqueles que desejam muito o sucesso do programa do Acre me disseram que não haveria problema se a compensação não anular todas a emissões de carbono prometidas, contanto que algumas árvores sejam protegidas e haja ganhos ambientais menores.

“A perfeição pode ser inimiga da realização”, diz Brown. “Há vários problemas… mas qual é a alternativa?”

Fazendas de gado na Rodovia BR-317, entre as cidades de Rio Branco e Xapuri. Foster Brown, geoquímico da Universidade Federal do Acre, em uma área de floresta recuperada próxima a seu escritório.

Uma História de Fracasso

Se o mundo recebesse uma nota para a confiabilidade da compensação de carbono, seria zero com certeza.

O Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL), programa mais abrangente sobre o assunto, foi desenvolvido a partir do Protocolo de Quioto em 1997, quando vários países fizeram um pacto para reduzir a emissão de gases do efeito estufa. Líderes europeus queriam forçar a indústria a emitir menos. Os americanos queriam flexibilidade. Países em desenvolvimento como o Brasil queriam dinheiro para combater as mudanças climáticas. Um dos pontos em que eles conseguiram chegar a um acordo foi a compensação de carbono.

A ideia funcionava perfeitamente no papel. Se uma usina termelétrica à base de carvão no Canadá precisasse cortar 10% de suas emissões, mas não quisesse gastar com equipamentos mais modernos, poderia comprar créditos de projetos em países em desenvolvimento. Investidores com planos de construir uma usina termelétrica na Índia poderiam optar por uma usina solar usando o dinheiro da venda antecipada de créditos de carbono para cobrir os custos mais altos. A diferença das emissões entre a usina à base de carvão hipotética e a usina solar real seria convertida em compensação. (Cada crédito equivale ao aquecimento global causado por uma tonelada métrica de CO₂.)

O programa subsidiou milhares de projetos, inclusive usinas hidrelétricas, eólicas e, ironicamente, usinas que queimavam carvão reivindicaram créditos por serem mais eficientes do que poderiam ter sido. O MDL se afundou em escândalos técnicos e de direitos humanos, e a União Europeia parou de aceitar a maioria dos créditos. Um relatório de 2016 revelou que 85% das compensações de emissões tinham “baixa probabilidade” de criar impactos reais.

Outro programa mundial, o Implementação Conjunta, tem um histórico parecido. Uma pesquisa de 2015 mostrou que 75% dos créditos dificilmente representavam reduções reais, e que se os países tivessem diminuído a poluição localmente em vez de usarem as compensações, as emissões globais de CO₂ teriam sido inferiores em 600 milhões de toneladas métricas.

Área desmatada na estrada a caminho da Reserva Extrativista Chico Mendes.

Quase todos os projetos falharam em cumprir à risca as exigências necessárias para uma compensação de carbono real chamada de adicionalidade. Isso significa que um ganho ambiental real aconteceria se as usinas solares ou eólicas tivessem sido construídas somente por causa dos pagamentos por créditos de carbono.

Esses programas evitaram incluir créditos pela preservação de florestas, em que um poluidor paga pela redução do desmatamento. A ciência por trás disso era considerada muito complicada. Como poderíamos saber quais árvores foram salvas por causa desses projetos e quais teriam ficado em pé mesmo sem eles?

A incerteza não impediu que delegações presentes nas rodadas de discussões climáticas da Organização das Nações Unidas (ONU) considerassem a ideia em 2007.

A ONU formalizou o conceito como REDD, ou Redução de Emissões de Desmatamento e Degradação Florestal. Os proponentes esperavam que os incentivos de carbono criassem bilhões de dólares para impulsionar a conservação enquanto os países ou empresas usariam os créditos para cumprir suas metas climáticas. Mas o mundo não chegou a um acordo sólido o suficiente para criar demanda por créditos e assim o financiamento nunca aconteceu.

Em vez disso, a ONU, o Banco Mundial e a Agência para o Desenvolvimento Internacional dos Estados Unidos (USAID) apoiaram os projetos-piloto. Organizações não-governamentais e empresas privadas financiaram centenas de projetos de compensação de pequena escala, e alguns países lançaram “programas com base em resultado”, que premiam quem preserva, mas sem permitir que alguém compense a poluição a partir disso.

Não há uma autoridade central para lidar com os diversos tipos de projetos de REDD que existem atualmente. E ninguém fez uma análise profunda sobre a real eficácia desses programas.

Atividade mineradora na Rodovia BR-364, com a Floresta Nacional do Jamari ao fundo.

Encontrei alguns estudos que chegaram perto. Em 2015, um centro de pesquisa francês revisou 120 projetos e descobriu que 37% deles se sobrepunham a áreas de parques nacionais. Embora a compensação exija um benefício adicional, os autores concluíram que o REDD estava simplesmente aproveitando planos de conservação que já existiam, usando-os como um “logotipo para atrair financiamento”.

Depois, achei uma análise feita pela Noruega, grande exportadora de petróleo e gás natural e maior apoiadora mundial do REDD, responsável por cerca de metade de todo financiamento do programa.

A informação de que os esforços do país não passaram em praticamente nenhum teste estava escondida em um relatório pouco divulgado publicado no ano passado pelo Escritório do Auditor Geral da Noruega:

Apesar do trabalho de uma década e de US$ 3 bilhões, os resultados foram “demorados e incertos”, a ciência para medir o carbono foi “aplicada parcialmente” e houve um risco “considerável” do que é conhecido como “vazamento” — quando a proteção de uma área provoca o desmatamento em outra. Somente esse problema já cria “incerteza considerável sobre o impacto climático”, conclui o relatório.


O Cartão de Crédito de Carbono

Aterrissei em Rio Branco à meia-noite no dia 11 de março e, mesmo naquele horário, a umidade era inacreditável. A floresta Amazônica abrange todo o estado. Em minha primeira manhã lá, encontrei com Brown no Quiosque Recanto das Capivaras no campus da universidade, próximo a um lago onde os maiores roedores do mundo estavam pastando. O geoquímico me deu uma carona até seu escritório, uma viagem curta pela famosa lama vermelha da Amazônia que mais pareceu um rafting de camionete. As estradas de terra são tão precárias que Brown mantém uma corda em seu veículo, e eu pude vê-lo usando-a para resgatar outro motorista mais tarde naquele dia.

Foi uma metáfora para o que eu sabia que ia encontrar no Acre: tentar preservar a floresta em um país em desenvolvimento é difícil, um esforço conturbado pela volatilidade política, a falta de infraestrutura e a pobreza que leva as pessoas a infringirem quaisquer proteções para plantar, garimpar ouro ou simplesmente retirar madeira suficiente para construir suas casas.

O desafio parece intransponível se ainda acrescentarmos a isso a exigência de fazer a compensação de carbono funcionar.

Capivara na Universidade Federal do Acre. Brown ajuda a desatolar um carro perto de seu escritório.

Quando as árvores absorvem CO₂, o gás não desaparece como mágica: as árvores simplesmente estocam o carbono, incorporando-o em seu tecido vivo enquanto crescem. Quando as árvores são destruídas, o carbono acumulado volta para a atmosfera como CO₂.

Pense nas árvores como se estivessem “escondendo carbono por algum tempo”, diz Abigail Swann, professora de ecologia da Universidade de Washington. O dióxido de carbono permanece na atmosfera por cerca de 100 anos.

Assim, a compensação pela floresta só funciona se as árvores ficarem intactas por pelo menos um século.

Nesse sentido, a compensação de carbono é como o cartão de crédito mais permissivo do mundo: o comprador ganha todo benefício imediatamente enquanto demora um século para pagar a dívida por completo.

Os proponentes da ideia dizem que mesmo meio século ou poucas décadas já poderiam fazer uma grande diferença. Para eles, a compensação pela floresta funciona para comprar tempo até que a sociedade descubra como se tornar independente dos combustíveis fósseis.

Mas, em minha pesquisa, descobri que as árvores eram derrubadas logo depois que os projetos vendiam os créditos.

Quando uma árvore é destruída, todo o carbono acumulado em seu período de vida é liberado de volta à atmosfera.

Em 2014, a FIFA comprou um lote de créditos de carbono para cumprir uma promessa de sustentabilidade feita antes da Copa do Mundo no Brasil. A compensação veio de um projeto lançado em 2009, depois que Almir Narayamoga Suruí, um dos líderes do povo Paiter-Suruí em Rondônia, iniciou conversas com o Google e consultores do mercado de carbono.

O projeto tinha como objetivo reduzir o desmatamento em uma área extremamente desmatada próxima à divisa da terra indígena, e recebeu recursos do USAID. Mas alguns indígenas ficaram decepcionados com a quantidade de dinheiro direcionada a grupos internacionais para o gerenciamento logístico e se uniram a madeireiros e ativistas anti-REDD para sabotar o projeto.

O projeto vendeu 250 mil créditos de carbono ao mesmo tempo em que o líder indígena documentava a destruição. “Cada dia, 300 caminhões saem fora do nosso território preenchidos de madeira”, ele escreveu em uma carta pública em 2016. O projeto foi suspenso no ano passado após madeireiros derrubarem uma quantidade de árvores maior do que o equivalente a todos os créditos vendidos.

Área parcialmente desmatada no território Paiter-Suruí, onde um projeto de REDD foi suspenso recentemente. O líder indígena Almir Suruí observa uma planta de cacau nativo em um viveiro.

Houve também um projeto lançado em 2008 para ajudar monges no Camboja a protegerem a floresta em que viviam. Ele atraiu aliados poderosos, recebendo financiamento da Fundação Clinton e o apoio do governo federal local.

Ao mesmo tempo, a floresta estava sendo posta abaixopor disputas violentas entre os exércitos do Camboja e da Tailândia na fronteira, pela exploração de madeira autorizada pelo mesmo governo que apoiava o projeto e pelo influxo de refugiados e ex-soldados do Khmer Vermelho que abriram assentamentos na floresta para plantar. Os obstáculos deveriam ter sido óbvios, já que a área estava cheia de minas terrestres.

O projeto foi criado para proteger 13 áreas de floresta cobrindo mais de 600 quilômetros quadrados. Vendeu 48 mil créditos e continua no mercado, mesmo depois de bases militares e vilas inteiras serem construídas nas áreas protegidas, de acordo com Timothy Frewer, um pesquisador australiano que passou meses no local. Após um grupo ambientalista citar as revelações de Frewer em um relatório de 2017, a companhia aérea Virgin Atlantic declarou que não compraria mais compensações dessas áreas.

A ProPublica contou com a ajuda do Descartes Labs, uma empresa de análise de imagens de satélite, para revisar dados dos 13 locais e quantificar o quanto de floresta ainda estava de pé. Documentos do projeto dizem que as áreas tinham em média 88% de cobertura vegetal em 2008. Nossa análise revelou que, em 2017, havia apenas 46%. Em uma das áreas protegidas, Angdoung Bor, a cobertura florestal começou com 90% e atualmente está em 0%.

A ProPublica entrou em contato com a Verra, uma organização sem fins lucrativos que

estabelece os padrões de garantia de qualidade dos créditos. Uma porta-voz disse que a organização não poderia comentar sobre o projeto até ter concluído sua própria pesquisa. Os consultores que deveriam oferecer atualizações in loco à Verra não divulgam um relatório há cinco anos. A Verra diz que os créditos vendidos já foram usados para compensar poluição.

Leslie Durschinger, CEO da desenvolvedora de projetos Terra Global Capital, disse por email que a falta de compradores e doadores no mercado de carbono deixaram o projeto “sem o apoio financeiro que precisava para ser bem-sucedido”.

A Floresta Que Sobrou Em Cinco Áreas Protegidas No Camboja

Em média, a cobertura florestal preservada nas 13 áreas deste projeto de REDD no Camboja foi de 46% em 2017, de acordo com a análise de dados de radar feita pelo Descartes Labs para a ProPublica. Essas cinco áreas mostram que o projeto teve resultados bastante variados. Em alguns lugares, como Phaav, conseguiu-se aumentar a área de florestas, mas, na maioria deles, perdeu-se um número significativo de árvores. Um dos locais perdeu toda a cobertura florestal.

Sorng Roka Vorn
2008: 86% de florestas, 2017: 63% de florestas

Phaav (Thmorda O Toekkhiev)
2008: 97%, 2017: 99%

O Sophy Kiri Prey Sruorng
2008: 90%, 2017: 18%

Ratanak Rukha
2008: 86%, 2017: 33%

Angdoung Bor
2008: 90%, 2017: 0%

Tailândia

Camboja

Laos

Vietnã

Camboja

Tailândia

Divisa dos Projetos de REDD

32.2 Km

Al Shaw e Lisa Song/ProPublica; Fonte: JAXA PALSAR via Descartes Labs, USGS/NASA Landsat

Brown mudou-se para o Acre há 26 anos como professor visitante e nunca mais deixou o local. Ele diz que a Amazônia o faz se sentir “útil”. Ele rastreia o impacto de secas e incêndios florestais, faz estimativas de carbono capturado pela floresta e tem representado o governo do Acre em conferências internacionais sobre o clima. Todo mundo o conhece por aqui. Ele anda de bicicleta pelo campus usando um colete fluorescente e tenta conscientizar as pessoas de todas maneiras possíveis, inclusive em workshops com trabalhadores rurais e por meio de uma coluna em um jornal local; em uma delas escreveu sobre por que se tornou vegetariano (para salvar as árvores, é claro).

Para ele, os questionamentos sobre a base científica de iniciativas como o REDD são menos importantes do que o potencial catastrófico de não agir para impedir o desmatamento.

“Tentar garantir algo por 100 anos é impossível neste momento”, ele me diz. “Se não agirmos rapidamente agora, essa discussão [científica] será apenas teoria”.

Cientistas e especialistas em florestas com quem conversei colocam dessa forma: se a Amazônia perder um número expressivo de árvores, vai chegar num ponto crítico sem volta, passando de um ecossistema exuberante para uma savana semi-árida. As consequências podem ser globais. E os países ricos não são generosos o suficiente para financiar a preservação das florestas tropicais sem ganhar algo em troca.


Na Ponta Do Lápis

Todo mundo concorda que as florestas são uma proteção essencial contra as mudanças climáticas. A questão é se a preservação delas deveria estar ligada à compensação que permite que outros continuem poluindo. Para isso funcionar, a contagem de carbono teria que ser “sólida como uma rocha”, ecologistas me disseram.

A conta começa com a estimativa de um nível de referência histórico, uma ideia de qual seria o desmatamento se não houvesse compensações. Quanto mais desmatamento se prevê, mais créditos se gera e mais dinheiro se pode conseguir. É fácil manipular o sistema colocando os números próximos da pior realidade possível.

Pesquisadores franceses levantaram questões sobre dois lugares na África que calcularam seus níveis históricos usando outras áreas supostamente comparáveis. No Congo, a área usada como referência tinha muito mais estradas e era próxima a portos, tornando o potencial de exploração de madeira maior do que na área protegida. Em Madagascar, o desmatamento na área de referência era duas vezes maior do que na floresta do projeto. Dessa forma, o projeto poderia reivindicar que estava diminuindo o desmatamento pela metade sem precisar fazer nada.

O Brasil, que abriga um terço das florestas tropicais do mundo e recebeu mais recursos do REDD do que qualquer outro país, usa níveis históricos distintos para justificar resultados muito diferentes.

Para o Fundo Amazônia, um programa apoiado pela Noruega que não cria compensação de carbono, o Brasil afirmou ter evitado a emissão de 4 bilhões de toneladas de CO₂ desde 2006 e que esse progresso era equivalente a US$ 22 bilhões. O Brasil relatou uma estimativa maior para um outro financiamento das Nações Unidas: US$ 36 bilhões, usando números mais antigos de desmatamento que acrescentaram outras 3 bilhões de toneladas métricas de carbono à conta. Como a Noruega e a ONU têm orçamentos limitados, no final o Brasil recebeu menos de US$ 2 bilhões.

Na verdade, o desmatamento no Brasil está crescendo; e vinha avançando mesmo sob um governo favorável à floresta, atingindo o maior nível em uma década no ano passado. Além disso, no fim do ano passado, o país elegeu um presidente de extrema-direita, Jair Bolsonaro, que declarou apoio ao agronegócio contra o que ele chamou de ativismo ambiental fanático. Ele extinguiu dois departamentos de combate às mudanças climáticas e cortou 24% do orçamento do principal órgão de fiscalização ambiental, o Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais).

O novo governo do Acre está alinhado com Bolsonaro e diz que quer aumentar a produção de soja e de carne bovina. “A salvação econômica do Acre está no agronegócio”, declarou o governador Gladson Cameli durante reunião com o governador de Rondônia, um dos estados mais desmatados da Amazônia.

Rastrear as árvores é essencial. Para os programas de REDD, o Brasil realiza o monitoramento do desmatamento em grande escala via satélite, começando com áreas do tamanho de cerca de 10 quarteirões de uma cidade. Mas há evidências de que muitos proprietários de terra utilizam a estratégia de desmatar áreas menores para escapar do monitoramento. A conta não inclui ainda a degradação, a perda de árvores para incêndios florestais e o corte seletivo. Um estudo importante revelou que essas atividades diminuem o estoque de carbono da Amazônia em uma média de 55%. Luiz Aragão, que coordena a divisão de sensoriamento remoto do Instituto de Pesquisas Espaciais (INPE), diz que somente os incêndios florestais podem alterar os números em 30%, e os cientistas estão apenas começando a entender como eles criam um dano duradouro.

Florestas podem perder carbono por meio de desmatamento de corte raso, corte seletivo ou incêndios florestais.

Perguntei a funcionários do governo do Acre como eles podiam garantir que os créditos florestais do estado têm validade científica.

Vera Reis, diretora-executiva da Secretaria de Estado de Meio Ambiente do Acre (e esposa de Brown), diz que a credibilidade dos créditos é “fundamental”. O monitoramento de satélite do Brasil consegue detectar áreas menores de desmatamento, diz ela; a resolução mais baixa é utilizada por motivos burocráticos, para manter os dados consistentes com a série histórica. O Brasil usa dados muito mais detalhados para relatórios federais sobre mudanças climáticas.

Ela diz que é muito cedo para afirmar que tipo de dados o Acre vai usar se fizer acordo com a Califórnia. Os detalhes ainda serão decididos, diz, e nós “queremos segurança” nos números.

Na mesma reunião, o secretário de Meio Ambiente do Acre, Israel Milani, que ocupa o cargo por indicação política, mudou de assunto para falar das oportunidades no agronegócio que não prejudicariam o meio ambiente. “O nosso estado é um estado relativamente pobre”, diz, “todo mundo que vive dentro da floresta, vive da floresta, precisa de um meio de vida.”

Depois me encontrei com Fluvio Mascarenhas, analista do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), órgão que supervisiona a Reserva Extrativista Chico Mendes, unidade de conservação com mais de 11 mil habitantes. Ele alertou para o perigo da preocupação excessiva com a qualidade dos créditos a serem vendidos. “Vai criar um não incentivo para preservar”, diz.

Assim como Brown, Mascarenhas é a favor de qualquer ajuda para salvar a floresta. Sua equipe foi reduzida pela metade na última década, e hoje há apenas 15 servidores para supervisionar 11 áreas federais protegidas no Acre, que abrangem 31 mil quilômetros quadrados — além de lidar com funções básicas de governo dentro da reserva, como educação, saúde pública e infraestrutura.

No seu escritório em Rio Branco, Mascarenhas estava monitorando áreas desmatadas com o Google Earth. Ele me mostrou que usa pontos amarelos para identificar residentes da reserva que desmataram mais do que o permitido — o mapa está coberto com marcas amarelas que representam um número muito maior de infratores do que a equipe tem a capacidade de lidar.

Fluvio Mascarenhas, analista ambiental do ICMBio, que supervisiona a Reserva Extrativista Chico Mendes. Residentes de motocicleta dentro da reserva.

Para coletar as multas, não existe sistema de correio nem boleto bancário. A equipe de Mascarenhas passa semanas caminhando pela floresta, dormindo em redes e confrontando os madeireiros pessoalmente. Alguns conseguem pagar a multa, que chega até a R$ 10 mil. Muitos são pobres demais para pagar.

Mascarenhas me contou sobre uma tentativa de criar uma indústria de cacau nativo na reserva para que os residentes pudessem viver de forma sustentável. O órgão passou dois anos pesquisando como fazer isso. Mas eles não conseguiram financiamento para a segunda metade do projeto, que era criar um mercado. As pessoas que cuidaram dos frutos não têm onde vendê-los, diz. “Os animais são os únicos comendo o cacau”. Eles agora estão buscando outro financiamento para implementar o projeto.

O governo vem tentando fazer com que as pessoas valorizem os produtos da floresta como a castanha-do-pará e a borracha, mas o mercado não está seguindo. “O mundo está falando para nós que temos que preservar”, diz, “mas ninguém mostra como”.

Algumas semanas depois da minha visita, o presidente do ICMBio, onde Mascarenhas trabalha, renunciou. Isso aconteceu depois que o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, ameaçou investigar servidores que não tinham participado de um evento do agronegócio, em que produtores rurais pressionaram pela retirada de proteções do Parque Nacional Lagoa do Peixe. Outros três diretores do órgão renunciaram e o governo os substituiu com militares.

Exemplos de tipos de madeira encontrados no Acre.

Insustentável

Um dia depois de me encontrar com representantes do governo do Acre, acordei cedo para viajar até a Reserva Extrativista Chico Mendes, a poucas horas de Rio Branco. O local é histórico não apenas no Acre, sua reputação vai muito além do Brasil.

Chico Mendes foi um dos primeiros ativistas a chamar a atenção global para a defesa da Amazônia quando o desmatamento ameaçava a sobrevivência dos seringueiros. Nos anos 80, ele organizou protestos chamados de “empates”, que envolviam confrontos não-violentos com desmatadores e seus tratores. Ele foi assassinado em 1988, mas seu legado continua nas áreas de conservação que cobrem 18% do Brasil. Os descendentes dos seringueiros que lutaram ao lado dele vivem em uma delas, a reserva que leva o seu nome.

Eu esperava ver floresta. Mas, no caminho para lá, tudo o que vi foi pasto. Nas pastagens sobram apenas poucas árvores — a castanha-do-pará, que é uma espécie protegida, e a palmeira, que é difícil de cortar com as lâminas da motosserra.

Dercy Teles, ex-presidente do sindicato que representava os seringueiros, mora no entorno da reserva. Ela me diz que defendia a floresta com Chico Mendes porque sua sobrevivência dependia disso; agora, apenas aqueles que moram bem no interior da reserva, sem acesso a mercados, estradas ou opções melhores ainda são seringueiros. Grandes empresas e países industrializados criaram os maiores danos que levaram às mudanças climáticas, diz ela, mas estão querendo “que a gente morra de fome em função da redução do gás carbônico”.

Boi usado para trabalhos agrícolas por Dercy Teles, ex-líder sindicalista. Fotos aéreas da casa dela. Teles fechando uma cerca próxima de sua casa.

Em 2010, quando o Acre era governado pelo Partido dos Trabalhadores (PT), que se autodenominava “governo da floresta”, o estado lançou várias políticas de sustentabilidade para engajar a população local em atividades que não envolvem a derrubada de árvores, como a colheita de castanha-do-pará e a construção de açudes para a piscicultura. A iniciativa rendeu ao Acre contribuições financeiras da Alemanha no valor de US$ 33 milhões até agora para a redução do desmatamento. É um programa que recompensa por resultados, mas não possibilita que o país europeu reivindique compensação pela poluição que causa.

O Brasil tem orgulho de ter reduzido drasticamente o desmatamento da Amazônia desde 2004. Mas é impossível calcular a quantidade de benefícios adicionais gerados por esses financiamentos estrangeiros. A queda coincidiu com um enorme programa de conservação do governo federal brasileiro. Depois da aprovação do novo Código Florestal, que reduziu restrições e a fiscalização em 2012, o desmatamento voltou a aumentar. Uma pesquisa recente sobre as contribuições da Noruega ao Fundo Amazônia mostrou que “uma ligação causal com a redução da taxa de desmatamento ainda precisa ser provada com rigor analítico”.

O governo do Acre diz que o programa beneficiou 7 mil indígenas e cerca de 14 mil famílias e está preparando um relatório mais detalhado.

A cobertura florestal está preservada em 94% dos mais de 900 mil hectares da Reserva Extrativista Chico Mendes, mas, mesmo assim, o desmatamento cresceu 60% entre 2000 e 2016, de acordo com estudo feito por Mascarenhas. Dentro e no entorno da reserva, eu observei evidências do funcionamento do programa — uma pousada ecológica para turistas, um armazém cheio de castanhas-do-pará. Mas não foi difícil encontrar pessoas frustradas com os programas de sustentabilidade do Acre.

Teles me levou para visitar o irmão dela, Pedro Teles de Carvalho, um ex-seringueiro que se tornou professor. O governo estadual enviou centenas de mudas de árvores frutíferas, diz ele, mas não ofereceu maquinário para preparar a terra — uma necessidade para se conseguir plantar no solo pobre da Amazônia. As mudas estão em seu quintal intocadas, ainda embrulhadas em plástico.

Pedro Teles de Carvalho segura as mudas que recebeu do governo. À esq.: Uma plantação de seringueiras na Reserva Extrativista Chico Mendes. Acima: Um pedalinho na pousada ecológica da reserva. A pousada estava fechada por causa da estação chuvosa.

Depois, encontrei o vizinho dele, Francisco Maurício Rios, que vive com uma pequena aposentadoria. Com esperança de comprar uma moto, ele entrou para o programa de manejo sustentável de madeira, mas o dinheiro não foi suficiente para comprar nem uma bicicleta elétrica. Ele diz que o governo cavou dois açudes em sua propriedade. Um deles seca todo verão e no outro ele cria peixes apenas para consumo próprio, pois a produção não é suficiente para vender. O governo também enviou mudas de seringueira, porém ele diz que não tem dinheiro para comprar o adubo que ajudaria as árvores a crescerem.

Esses tipos de frustrações prejudicaram projetos de compensação florestal por todo o mundo. Eles tentam fazer com que residentes deixem de cortar árvores para cozinhar, aquecer água ou para plantar, mas só funcionam se as vendas de crédito de carbono oferecerem uma alternativa segura. Porém, raramente isso acontece. Com a venda da borracha da reserva, ganha-se R$ 2 por quilo, quase o valor de uma xícara de café, enquanto uma cabeça de gado rende R$ 800.

José Romário Gomes da Silva e Elizete Carneiro de Brito moram com sua filha Thaíssa, 5, em uma casa cheia de coisas que seus pais nunca tiveram: celular, sofá e um tapete felpudo rosa. Isso é devido, em parte, ao pequeno rebanho bovino que ele mantém na área da reserva em que ele mora e antes era coberta por árvores.

“O gado é um dos produtos que tem mercado seguro pra gente vender. Tem muita renda com a venda de um bezerro, de um boi”, diz Silva.

“Quem aqui vai querer cortar seringa mais hoje?, diz Brito. “Ninguém, praticamente ninguém. A gente quer uma maneira que seja mais fácil pra gente viver.”

Balsa cruzando o rio de Xapuri no caminho para a Reserva Extrativista Chico Mendes. Tora de madeira perto da casa de Francisco Maurício Rios. Rios em pé próximo a uma pilha de madeira próximo à sua casa. José Romário Gomes da Silva e Elizete Carneiro de Brito com sua filha Thaíssa.

‘Ok, Sabichona, Qual É A Sua Solução Então?’

Minha visita ao Acre sugere que mesmo o melhor programa de REDD do mundo enfrenta obstáculos práticos, políticos e científicos que não podem ser resolvidos apenas com mais financiamento — outro sinal de alerta dos relatórios dos projetos iniciais que não funcionaram.

Mesmo assim, quando expliquei o que descobri para 20 cientistas e pesquisadores de crédito de carbono — inclusive vários que passaram muito tempo das suas carreiras trabalhando para implementar, melhorar e estudar a compensação florestal — eles muitas vezes responderam de forma agressiva.

Concordaram com os fatos básicos, mas quando eu perguntei se isso indicava que o REDD estava fracassando, eles se opuseram. Veementemente.

Amy Duchelle, cientista do Centro de Pesquisa Florestal Internacional, co-editou um livro publicado no ano passado que dizia que o REDD “ainda não produziu o impacto geral esperado de reduzir gases [do efeito estufa]” e que o desmatamento de florestas tropicais não desacelerou.

Ela repetiu esses fatos em uma entrevista, enfatizando que essas iniciativas foram úteis de outras maneiras, ajudando os países a melhorarem o monitoramento do desmatamento, entenderem suas causas e assegurarem o direito à terra das comunidades indígenas. Ela até encontrou resultados científicos “moderadamente encorajadores” em alguns projetos.

A corrida pela compensação de emissões está nos fazendo fechar os olhos para evidências cada vez maiores de que não tivemos — e não teremos — os benefícios ambientais prometidos.

No entanto, quando conversamos novamente depois da minha viagem ao Acre, a situação ficou tensa. Ela disse que morou anos no Brasil. O que eu saberia depois de uma viagem curta? “Você não vai me citar”, ela disse. “Eu não gosto dos rumos que essa matéria está tomando”.

Searchinger, pesquisador da Universidade de Princeton, diz que as pessoas que tentam fazer o REDD funcionar reconhecem as limitações do programa. Ele me ajudou a entender a resistência à crítica de pessoas de fora, meio brincando: “A questão é: ‘Ok, sabichona, qual é a sua solução então?’”

Vários pesquisadores e cientistas me disseram que a compensação por preservação da floresta não teve uma oportunidade real de funcionar totalmente — que não vamos ter a resposta até o mundo implementar programas em grande escala, com bilhões a mais em recursos. “A verdade é que o REDD continua sendo uma grande ideia que não foi implementada em sua completude”, diz Frances Seymour, pesquisador do World Resources Institute (Instituto de Recursos Mundiais, em tradução livre).

Isso significa apostar o futuro nas mãos de programas geridos por governos como o do Acre.

Em uma audiência controversa que durou 6 horas em novembro passado, o Conselho de Recursos Atmosféricos da Califórnia considerou adotar as Diretrizes para Florestas Tropicais, o que poderia abrir as portas para a Califórnia e outros governos fazerem negócio com o Acre ou programas similares.

Representantes do Brasil testemunharam a favor do acordo, enquanto grupos internacionais de direitos humanos pediram o contrário. Ativistas indígenas e ambientais defenderam ambos os lados, e duas cartas opostas, cada uma assinada por mais de 100 cientistas e pesquisadores, se colocavam a favor e contra a proposta.

Os apoiadores da proposta resumiram o que vinha ouvindo: que vai ajudar a resolver o problema urgente do desmatamento, cujas implicações são globais. Os críticos questionaram os dados científicos. As incertezas da contagem de carbono, que são ampliadas por programas em larga escala, são tão vagas que os cientistas não sabem o quanto eles ainda não conhecem sobre o assunto.

Stanley Young, porta-voz do conselho, me disse que as diretrizes da Califórnia têm salvaguardas para não repetir erros. “Temos consciência, assim como você, de como não funcionou no passado”.

Pasto na Reserva Extrativista Chico Mendes com floresta intacta ao fundo.

As regras exigem que os programas tenham proteções ainda maiores que as políticas atuais e apresentem uma redução drástica do desmatamento. Exigem ainda que as árvores fiquem de pé por 100 anos. Mas as orientações para vazamento estão descritas em apenas duas frases, e não obrigam os países a relatarem a degradação, potencialmente deixando de fora uma grande parte das emissões de CO₂.

Jason Gray, chefe do programa de cap-and-trade do conselho, diz que a degradação é difícil de mensurar, mas as diretrizes vão incentivar uma melhora do monitoramento para que os países adicionem esses dados depois. “Se esperarmos pela informação perfeita”, diz, pode ser tarde demais.

Em abril, seis membros do Parlamento Europeu pressionaram a Califórnia para rejeitar as Diretrizes para Florestas Tropicais, citando preocupação com as mudanças políticas no Brasil e ressaltando que a União Europeia não aprovou os créditos vindos de florestas em seu programa de cap-and-trade “devido a questionamentos sobre a integridade ambiental”.

As diretrizes estão sendo revisadas por uma comissão de mudanças climáticas da assembleia legislativa da Califórnia, que pode divulgar suas recomendações em breve. O Conselho de Recursos Atmosféricos vai decidir se as aprovará ainda neste ano. Qualquer compra potencial de créditos para compensação de poluição ainda precisaria de outra aprovação do conselho.

Barbara Haya, pesquisadora da Universidade da Califórnia em Berkeley que estuda o mercado de carbono, diz que estamos nos iludindo se achamos que esses programas florestais serão capazes quantificar os créditos de forma precisa e, portanto, compensar a poluição equivalente, mesmo sob a nova diretriz.

O melhor que podemos esperar é um programa que ajude o clima de uma forma impossível de se mensurar, diz. “As compensações de carbono são isso. E acho que isso é o máximo que elas podem ser”.

Plantação de soja na Rodovia BR-364.

Metodologia Da Análise De Satélite

Para estimar a área de floresta que se manteve preservada no projeto do Camboja, a ProPublica pediu para o Descartes Labs analisar os documentos oficiais do projeto enviados à Verra, a organização sem fins lucrativos que estabelece os padrões de garantia de qualidade dos créditos. Os documentos listam o tamanho de cada um dos 13 locais protegidos e o quanto de florestas possuíam. Em média, em 2008, a cobertura florestal era de 88%. Os desenvolvedores do projeto usaram dados de satélite do sistema Landsat com resolução de 30 metros para definir áreas de florestas “com pelo menos 10% de cobertura de copas, uma árvore de 5 metros, e uma área mínima de 0,5 hectare para pelo menos 10 anos antes da data de início do projeto”.

O Descartes Labs então usou o mapa Global PALSAR Forest, criado pela Agência de Exploração Espacial do Japão, para examinar a extensão de florestas nessas áreas em 2017 usando divisas geográficas disponíveis nos documentos do projeto. Os dados do PALSAR, disponíveis em resolução de 25 metros, definiram as áreas de floresta como “uma área maior que 0,5 hectare coberta com árvores e com cobertura de copas maior que 10%”, praticamente idêntica à definição de 2008.

Os mapas de 2017 mostram que, em média, a cobertura florestal das áreas protegidas era de 46%.

Lisa Song cobre meio ambiente, energia e mudanças climáticas. Antes de trabalhar na ProPublica, ela fez parte da equipe que produziu a série sobre a Exxon que foi finalista do Prêmio Pulitzer de serviço público em 2016, e de “O Desastre de Dilbit”, que ganhou o Pulitzer de reportagem nacional em 2013.

Traduzido do inglês por Paula Moura, com contribuição de Anna Beatriz Anjos. O desenvolvedor de bases de dados e gráficos da ProPublica Al Shaw contribuiu para essa matéria.

Agradecimento especial para nossos motoristas no Brasil: Márcio Ferreira, Maiken de Araújo Oliveira, Edno Pereira Reis e Felipe Abate.

Ilustrações de Greg Batza, especial para a ProPublica. Design e produção de Agnes Chang.

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